
"O excelente vinho gera entusiasmo. E qualquer coisa que você faça com entusiasmo é geralmente bem-sucedida", disse o Barão Philippe de Rothschild.
Desde que ele chamou o artista cubista Jean Carlu para criar um rótulo para a safra de 1924 do Château Mouton Rothschild, a prática de colocar obras de arte em rótulos de vinho disseminou-se. A boa ideia do lendário barão foi salutarmente imitada nos quatro cantos do planeta, sob diversas formas.
Tudo começou numa época em que os grandes vinhos de Bordeaux saíam dos Châteaux em barris, para posteriormente serem engarrafados, rotulados e vendidos por negociantes. Sem controle direto sobre o resultado final, o produtor (o dono do Château) tinha pouco interesse na aparência do rótulo. O design era, então, deixado a cargo do comerciante.
Em 1924, o Château Mouton Rothschild (CMR) instituiu uma prática revolucionária: a safra passou a ser inteiramente engarrafada no local. Foi o nascimento do famoso "mise en bouteilles au château" (engarrafado no castelo), procedimento que logo foi adotado por outros grandes vinhos de Bordeaux.
Uma das consequências deste procedimento foi a responsabilidade direta do produtor, perante o consumidor, pela qualidade final do produto. Os rótulos, então, ganharam uma nova função: eles se tornaram a certidão de nascimento de cada garrafa. Desejando chamar a atenção para este fato, o Barão Philippe de Rothschild contratou Carlu. O artista deveria criar uma obra original para ser colocada no rótulo da safra de 1924.
Desde então, uma invejável lista se sucedeu na criação de rótulos para o CMR: Georges Braque, Salvador Dalí, Henry Moore, Juan Miró, Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Andy Warhol, entre outros. As garrafas do Premier Cru Classé se tornaram itens de colecionador, não apenas por seu conteúdo, mas também por sua apresentação. A safra de 1973, por exemplo, considerada fraca, fez grande sucesso por ostentar em seu rótulo uma obra de Pablo Picasso, em homenagem ao artista catalão no ano de sua morte.
Outra das muitas histórias interessantes ligadas aos rótulos do CMR se refere à safra de 1993. O rótulo original, criado pelo artista Balthus, foi proibido nos Estados Unidos. Era um nu artístico em que a retratada foi considerada jovem demais. Resultado: o vinho foi vendido com uma tarja branca no lugar da pintura. Um disparate.
A prática de colocar obras de arte em rótulos de vinho foi salutarmente imitada por produtores no mundo inteiro. No Brasil, a Forrestier adotou a prática lançando, nos anos 80, sua linha Reserva, ilustrada por artistas brasileiros. Em 2001, a Salton lançou sua linha Salton Volpi, homenageando o pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (Itália, 1896 - Brasil, 1988), famoso por suas "bandeirinhas de São João".
Outra garrafa que se destacou pelo rótulo artístico foi o "Valpolicella Classico San Ciriaco", do produtor Boscaini. Ele ganhou o prêmio de melhor rótulo estrangeiro, concedido em 1996, nos Estados Unidos, pela Society of Wine Educators, e traz a obra Finestra su San Ciriaco, de Elena Schiavi Gazzola. O quadro é um retrato de uma janela aberta para os vinhedos da região.
Os exemplos são muitos, como os californianos da vinícola Buena Vista. A série Grand Reserve, composta por três vinhos: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir, na qual cada um traz uma tela de um pintor norte-americano no rótulo. Vale citar também o ótimo vinho espanhol Valduero, que exibe a tela Fundación de Castilla, de Vela Zanetti.
Mín. 20° Máx. 27°