A argentina Catena Zapata foi eleita, pelo segundo ano consecutivo, a marca de vinho mais admirada do mundo. O resultado faz parte da edição de 2026 do ranking The World’s Most Admired Wine Brands, elaborado pela revista especializada britânica Drinks International.
A vinícola, localizada em Mendoza, também recebeu o título de marca de vinho mais admirada da América do Sul. Na segunda posição do ranking mundial aparece a italiana Antinori, que avançou duas posições em relação à lista anterior e foi reconhecida como a marca mais admirada da Europa. O pódio é completado pela espanhola Familia Torres.
O levantamento reúne a avaliação de profissionais do setor, como sommeliers, compradores, comerciantes, jornalistas especializados, educadores, críticos e integrantes da comunidade de Masters of Wine. Entre os aspectos considerados estão a qualidade dos vinhos, a regularidade da produção, a força da marca, a inovação e a relação entre preço e qualidade.
A história da Catena Zapata está ligada à trajetória da imigração italiana na Argentina. Segundo informações divulgadas pela própria vinícola, a família Catena começou a cultivar uvas em Mendoza em 1902, quando Nicola Catena plantou seu primeiro vinhedo de Malbec na região.
Ao longo de quatro gerações, a empresa se tornou uma das principais responsáveis pela valorização internacional dos vinhos argentinos, especialmente do Malbec. A variedade, que tem origem francesa, encontrou em Mendoza condições favoráveis para desenvolver características próprias, influenciadas pela altitude, pela baixa umidade e pela proximidade da Cordilheira dos Andes.
Um dos símbolos da vinícola é o vinhedo Adrianna, situado em uma área de grande altitude. A propriedade é apresentada pela Catena Zapata como um dos principais projetos de pesquisa e experimentação da empresa, com estudos sobre solo, clima, altitude e comportamento das uvas.
A projeção internacional da marca cresceu especialmente a partir da década de 1990, quando a família passou a investir na produção de vinhos de maior qualidade e na pesquisa de diferentes terroirs. O objetivo era demonstrar que a Argentina poderia produzir rótulos capazes de competir com vinhos tradicionais de países europeus.
Com a segunda colocação mundial, a italiana Antinori reforça a presença histórica da Itália entre as marcas de maior prestígio no setor.
A família Antinori atua no comércio de vinhos desde 1385, quando Giovanni di Piero Antinori ingressou na Corporação dos Vinicultores de Florença. A empresa atravessou mais de 26 gerações e construiu sua reputação combinando a preservação das tradições italianas com experiências de inovação.
A vinícola possui propriedades em diferentes regiões, principalmente na Toscana, além de empreendimentos em outras áreas produtoras. Entre seus rótulos mais conhecidos estão Tignanello e Solaia, vinhos associados à modernização da produção italiana e à valorização de variedades tradicionais.
O desempenho da Antinori em 2026 também atualiza o resultado do ano anterior. Em 2025, a italiana Gaja havia aparecido na segunda colocação mundial e liderado entre as marcas europeias. Na edição de 2026, porém, a Antinori assumiu a liderança continental.
Apesar de frequentemente aparecerem lado a lado em notícias e redes sociais, os títulos de “marca mais admirada” e “marca mais valiosa” não representam a mesma coisa.
O ranking da Drinks International mede a percepção de profissionais do mercado em relação às marcas. A avaliação está relacionada a fatores como reputação, qualidade, consistência, inovação e reconhecimento no setor.
Já a consultoria Brand Finance utiliza critérios financeiros para calcular o valor de uma marca. Em seu levantamento de 2025, a Moët & Chandon foi apontada como a marca de champanhe e vinho mais valiosa do mundo, com valor estimado em US$ 2,1 bilhões.
A consultoria informou que utiliza o método Royalty Relief, que calcula quanto uma empresa teria de pagar para utilizar determinada marca caso não fosse proprietária dela. A análise considera, entre outros elementos, a força da marca, as receitas projetadas e o valor presente dos ganhos futuros.
Assim, uma marca pode ser muito valiosa financeiramente sem liderar um ranking de admiração entre especialistas — e o contrário também pode ocorrer.
A presença da Catena Zapata no topo do ranking mostra a transformação do mapa internacional do vinho. Durante muito tempo, o prestígio esteve concentrado principalmente em regiões tradicionais da França, da Itália e da Espanha.
Nos últimos anos, produtores da América do Sul, da Oceania, da África do Sul e dos Estados Unidos passaram a ocupar espaço maior entre os rótulos reconhecidos mundialmente. A Argentina se destacou nesse processo ao associar o Malbec à identidade de Mendoza e ao investir em pesquisa, tecnologia e viticultura de altitude.
A liderança da Catena também revela que tradição e reconhecimento histórico não são os únicos caminhos para conquistar prestígio. A origem relativamente recente da marca no cenário global não impediu que ela alcançasse uma posição de destaque entre profissionais de diferentes países.
Rankings de prestígio ajudam a identificar tendências do mercado, mas não determinam qual vinho será melhor para cada consumidor.
A avaliação de uma marca envolve critérios coletivos e profissionais. Já a experiência de beber vinho é individual e depende do paladar, da ocasião, da comida e das expectativas de quem degusta.
Um rótulo premiado pode não agradar a todos. Da mesma forma, uma garrafa de uma marca menos conhecida pode proporcionar uma experiência marcante. O ranking, portanto, funciona como uma referência de reputação — não como uma regra absoluta de consumo.
A escolha da Catena Zapata também ocorre em um momento de mudanças para a indústria do vinho. O setor enfrenta desafios relacionados às alterações climáticas, ao aumento de eventos extremos, à necessidade de práticas agrícolas mais sustentáveis e à transformação dos hábitos de consumo.
Vinícolas de diferentes regiões têm buscado adaptar técnicas de cultivo, testar novas variedades, reduzir o uso de água e desenvolver formas de produção com menor impacto ambiental.
Ao mesmo tempo, o consumidor demonstra interesse por vinhos de diferentes estilos, incluindo rótulos orgânicos, biodinâmicos, naturais, de baixa intervenção e produzidos em regiões antes pouco conhecidas no mercado internacional.
A vitória da Catena Zapata vai além de um prêmio para uma vinícola específica. O resultado reforça a presença da Argentina entre os grandes produtores mundiais e confirma a importância de Mendoza no cenário internacional.
A Antinori, por sua vez, representa a capacidade de uma marca centenária continuar relevante ao combinar herança familiar, território e inovação.
No fim, a disputa pelo topo revela um mercado cada vez mais diversificado. De um lado, uma vinícola argentina que ajudou a reposicionar o Malbec no mundo. Do outro, uma família italiana com mais de seis séculos de história. Entre tradição e renovação, o vinho continua encontrando novas formas de chegar à taça — e de conquistar admiradores em diferentes partes do planeta.
Nota editorial: o ranking de 2026 foi divulgado em 26 de março de 2026 pela Drinks International. A matéria diferencia o conceito de marca “mais admirada”, baseado na avaliação de profissionais do setor, do conceito de marca “mais valiosa”, calculado por critérios financeiros.