Um estudo italiano publicado no Journal of Sexual Medicine encontrou uma associação entre o consumo moderado e habitual de vinho tinto e melhores índices de função sexual feminina. A pesquisa, realizada com mulheres da região de Chianti, na Toscana, chamou atenção ao apontar que aquelas que afirmaram beber uma ou duas taças por dia apresentaram pontuações mais altas em determinados aspectos da sexualidade, incluindo o desejo.
O resultado, porém, não significa que o vinho aumente a libido — e tampouco que beber seja uma estratégia para melhorar a vida sexual. A pesquisa foi observacional, baseada em questionários e informações fornecidas pelas próprias participantes. Por isso, ela identificou uma relação entre os fatores, mas não demonstrou causa e efeito.
A pesquisa avaliou 798 mulheres italianas, com idades entre 18 e 50 anos, consideradas sexualmente saudáveis e sem queixas de disfunção sexual. Todas viviam na região de Chianti, conhecida pela produção de vinhos na Toscana.
As participantes foram divididas em três grupos, conforme o consumo diário declarado:
Para analisar a função sexual, os pesquisadores utilizaram o Female Sexual Function Index (FSFI), um questionário criado para avaliar diferentes dimensões da sexualidade feminina.
O instrumento considera aspectos como:
A pesquisa foi publicada com o título Regular Moderate Intake of Red Wine Is Linked to a Better Women’s Sexual Health. O trabalho é associado aos pesquisadores Nicola Mondaini, T. Cai, Paolo Gontero, Andrea Gavazzi, Gian Maria Lombardi, Valentina Boddi e Riccardo Bartoletti. A publicação pode ser consultada na base da editora científica ScienceDirect.
O grupo que declarou consumir uma ou duas taças de vinho por dia apresentou as maiores pontuações médias no questionário, especialmente nos domínios relacionados ao desejo e à lubrificação. Em termos gerais, essas mulheres também tiveram uma pontuação de função sexual superior à observada entre as que não consumiam vinho.
As participantes que bebiam mais de duas taças por dia não apresentaram necessariamente resultados melhores. Esse dado foi interpretado pelos autores como compatível com a possibilidade de que o padrão moderado estivesse associado a uma função sexual mais favorável do que o consumo elevado ou a abstinência.
É importante observar que a pesquisa não comparou mulheres que passaram a beber com mulheres que não beberam. As participantes já tinham hábitos diferentes antes da avaliação.
A principal cautela está no desenho do estudo. Trata-se de uma pesquisa transversal: consumo de vinho e função sexual foram avaliados no mesmo período.
Esse tipo de estudo pode mostrar que dois fatores aparecem relacionados, mas não consegue determinar qual deles veio primeiro. Também não elimina a influência de outros aspectos, como:
É possível, por exemplo, que mulheres com melhores condições de saúde, maior bem-estar ou vida social mais ativa também fossem mais propensas a consumir vinho moderadamente. Nesse cenário, o resultado não seria necessariamente provocado pela bebida.
Além disso, o estudo foi realizado em uma região específica da Itália, com mulheres consideradas saudáveis. Portanto, os achados não podem ser automaticamente generalizados para todas as mulheres ou para pessoas com problemas de saúde, histórico de dependência ou uso de medicamentos.
O FSFI é uma ferramenta reconhecida para pesquisas sobre função sexual feminina e avalia diferentes dimensões por meio de perguntas padronizadas. Ele é útil para identificar padrões e comparar grupos, mas não substitui uma avaliação clínica individual.
Uma pontuação mais alta no domínio do desejo indica que as participantes relataram maior desejo nas respostas ao questionário. Isso não equivale necessariamente a uma mudança fisiológica provocada pelo vinho nem a uma melhora objetiva da libido.
A própria interpretação do instrumento exige cuidado. Pesquisas metodológicas posteriores discutem questões relacionadas a pontos de corte, aplicação e interpretação do FSFI, especialmente quando o questionário é usado isoladamente para definir a presença ou ausência de uma disfunção sexual. A validação do instrumento e seus pontos de corte foram discutidas em estudos indexados no PubMed.
O álcool pode reduzir a inibição e provocar uma sensação momentânea de relaxamento ou desinibição. Essa percepção subjetiva, no entanto, não significa necessariamente melhora da resposta sexual.
Em quantidades elevadas, o álcool pode prejudicar:
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 reuniu sete estudos transversais, com mais de 50 mil mulheres. Os autores encontraram uma associação entre consumo de álcool e maior probabilidade de disfunção sexual, embora tenham ressaltado a elevada heterogeneidade entre os estudos e as limitações dos dados observacionais. O trabalho está disponível no PubMed Central.
Esse conjunto de evidências mostra que a relação entre álcool e sexualidade feminina é complexa. Ela pode variar conforme a dose, o padrão de consumo, as características individuais e o contexto emocional e afetivo.
O estudo italiano não autoriza a recomendação de uma ou duas taças de vinho por dia para aumentar o desejo sexual. Mulheres que não bebem não devem começar a consumir álcool por supostos benefícios à libido.
A Organização Mundial da Saúde destaca que não existe nível seguro de consumo de álcool em relação ao risco de câncer. Mesmo pequenas quantidades estão associadas ao aumento do risco de diferentes tipos da doença, incluindo o câncer de mama. A orientação pode ser consultada na página da OMS sobre álcool e câncer.
Também devem evitar álcool completamente as pessoas grávidas ou que possam estar grávidas, quem vai dirigir, menores de 18 anos, pessoas com histórico de dependência e quem utiliza medicamentos que possam interagir com a bebida.
O desejo sexual é influenciado por fatores físicos, emocionais, hormonais e relacionais. Cansaço, estresse, ansiedade, depressão, dor, alterações hormonais, problemas de sono e efeitos colaterais de medicamentos podem reduzir a libido.
Quando a falta de desejo causa sofrimento ou interfere na vida da pessoa, vale buscar avaliação com ginecologista, clínico, psiquiatra, psicólogo ou outro profissional habilitado. O tratamento depende da causa e pode envolver cuidados de saúde, terapia, revisão de medicamentos, melhora do sono, redução do estresse e comunicação dentro do relacionamento.
O estudo encontrou uma pontuação média mais alta de função sexual entre mulheres italianas que relataram consumo moderado de vinho tinto. Essa é uma observação interessante para a ciência, mas não uma demonstração de que o vinho provoque aumento da libido.
A conclusão mais responsável é que pode haver uma associação entre determinados padrões de consumo e indicadores de função sexual, mas são necessários estudos mais robustos — especialmente pesquisas longitudinais e ensaios controlados — para investigar a relação com maior segurança.
Enquanto isso, o vinho pode ser apreciado, quando apropriado, como parte de uma experiência gastronômica e social. Ele não deve ser tratado como tratamento, suplemento ou estimulante sexual.
Nota editorial: a pesquisa italiana encontrou uma associação em uma amostra específica e não permite afirmar que o consumo de vinho tinto aumente a libido feminina.
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