
Paris — O calor intenso e a seca que castigaram a França ao longo do verão de 2026 devem derrubar a produção vinícola do país ao menor patamar em cerca de 70 anos. A estimativa foi divulgada nesta segunda-feira (7) pelo Ministério da Agricultura francês, que prevê uma safra 6% inferior à de 2025, totalizando menos de 34 milhões de hectolitres.
Segundo a pasta, a queda é resultado direto de uma combinação de ondas de calor sem precedentes, estiagem prolongada e, em alguns casos, granizo que devastou parreirais em poucos minutos. A França, segundo maior produtor de vinhos do mundo, atrás apenas da Itália, já havia registrado em 2025 a colheita mais baixa desde 1957, de acordo com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). A nova estimativa indica que o setor caminha para aprofundar esse recuo histórico.
"Estamos vendo o potencial derreter ao sol", resumiu Laurent Delaunay, presidente do Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne (BIVB), em declarações reproduzidas pela Reuters. O dirigente explicou que os viticultores da Borgonha estão especialmente preocupados com a escassez de água, depois de mais de três semanas sem chuva nas principais regiões produtoras.
Em Champagne, a expectativa é de uma redução de cerca de 10% nos rendimentos, com a colheita começando semanas antes do calendário habitual, segundo reportou o portal The Drinks Business. Produtores de Bordeaux e da Alsácia também relatam葡萄s menores, comprometidos pela maturação forçada sob temperaturas elevadas.
"Paramos de fazer estimativas de produção porque elas caem a cada dia", afirmou Jérome Bauer, presidente da CNAOC-Maison des Vignerons e produtor na Alsácia, ao Le Monde. Já Bernard Farges, presidente do Comité National des Interprofessions des Vins à appellation d'origine (CNIV) e viticultor em Bordeaux, adotou tom mais cauteloso: "Por enquanto, caminhamos para uma colheita que pode ser pequena, mas ainda é cedo para cravar."
O governo francês anunciou na semana passada mais de € 1 bilhão em apoio emergencial aos agricultores atingidos pela estiagem, em meio à pressão crescente do setor agrícola por medidas estruturais diante da frequência cada vez maior de eventos climáticos extremos. A crise atual reacende o debate sobre adaptação das castas, técnicas de manejo do solo e uso mais eficiente da água nas regiões vitivinícolas.
Apesar da redução de volume, parte dos produtores sustenta que a qualidade da safra pode surpreender. "Colheitas menores nem sempre significam vinhos piores. Em alguns parreirais, o rendimento limitado pode concentrar a fruta, desde que as videiras não sejam forçadas ao limite pelo calor e pela falta d'água", observou reportagem do Vinetur publicada neste mês.
Ainda assim, a magnitude do recuo preocupa o setor. Meteorologistas ouvidos pela AFP avaliam que, se o padrão climático das últimas décadas se mantiver, a vinicultura francesa terá de se reorganizar em torno de videiras mais resistentes à seca e de práticas de irrigação até então pouco usuais no país. As primeiras projeções para 2027, embora preliminares, não indicam recuperação significativa no curto prazo.
O Ministério da Agricultura francês deve atualizar as estimativas nas próximas semanas, à medida que a colheita avançar nas diferentes regiões.
Fontes: Ministério da Agricultura da França, AFP, Reuters, Le Monde, France 24, The Drinks Business, Vinetur, OIV.
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