
A cena vinícola brasileira pode não ser uma página em branco, mas certamente está longe de uma arte final. Não somos uma consagrada região produtora de vinhos com séculos de história e práticas arraigadas, ainda que existam sim polos de tradição importantes por aqui. Uma das vantagens disso – tinha de existir alguma, né? - é a maior liberdade para experimentar e criar.
De fato, fica difícil imaginar alguém testando um vinho da uva primitivo na Borgonha, a terra da delicada pinot noir e da gloriosa chardonnay. Ou derrubando vinhedos de nebbiolo no Piemonte para plantar malbec. Mas por aqui ainda estamos em fase de descobrir os terroirs e colocar as teses à prova. Algumas coisas não funcionam - faz parte -, mas há também achados surpreendentes.
Essa condição sem amarras tem rendido – perdão pelo trocadilho – bons frutos. Experimentar com uvas diferentes é um dos aspectos fascinantes da atual fase da viticultura do Brasil. Ainda que as mais conhecidas variedades internacionais - cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, sauvignon blanc etc. - dominem, há um número crescente de caldos elaborados com castas menos usuais.
A syrah - que já é bastante internacional - tem ganhado protagonismo no Sudeste do Brasil. A cabernet franc também gera resultados cada vez mais interessantes. E variedades que se firmaram em outros países da América do Sul, notadamente a malbec e a tannat, estão bem presentes. Mas há vinhedos no Brasil com uvas que poucas vezes carimbam o passaporte para viajar para além de suas regiões originais. Caso da sangiovese (Itália / Toscana), touriga nacional (Portugal) ou viogner (França / Rhone), dentre muitas outras.
Como um dos objetivos deste Guia é ampliar o conhecimento e as experiência do consumidor, só podemos brindar a essa tendência. Mesmo quando o resultado não é exatamente empolgante nas primeiras tentativas, a coragem de testar algo fora dos padrões é digna de aplausos.
Há estranhos no ninho por aqui - e vale a pena dar uma chance a eles na sua taça.
A liberdade de experimentar que vemos na cena vinícola nacional não fica restrita ao uso de variedades menos comuns. A inovação ocorre até no cultivo e manejo dos vinhedos. O melhor exemplo disso são os vinhos de inverno ou de poda invertida, técnica que permite colher as uvas entre julho e setembro, quando a baixa incidência de chuvas em algumas regiões do Brasil, como no Sudeste (sobretudo Serra da Mantiqueira), contribui muito para a qualidade do líquido.
Outro aspecto – ligado à técnica de poda invertida em alguns casos, já que essa prática permite fazer bons produtos em terroirs onde antes isso era mais difícil – é a constante descoberta de novas áreas que podem produzir vinhos de qualidade.

Vinícola Guatambu: Campanha Gaúcha
O que estava restrito à Serra Gaúcha (RS) foi se ampliando para outras partes do estado, como Campanha Gaúcha, Altos Montes e Serra do Sudeste, por exemplo. E aí vieram novas zonas produtoras em diferentes estados: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais… até chegar a regiões que ainda passam muito longe do imaginário das paisagens vinícolas, como o interior da Bahia. Uma expansão que está longe de terminar. Quem sabe o melhor terroir do Brasil ainda não tenha sido descoberto?
Se usar bem essas experiências com variedades de uvas, técnicas de manejo e novos terroirs, o Brasil pode desenvolver uma identidade própria – na verdade várias identidades, pois as regiões produtoras aqui dentro são bem díspares entre si – e não apenas reproduzir estilos europeus. Parece que estamos no caminho certo.
Mín. 20° Máx. 27°