Cultura por: Beto Gerosa
Quando rótulos contam histórias
Um rótulo de vinho é uma mensagem na garrafa. Só que do lado de fora. A mensagem - em forma de texto, enriquecida com ilustrações ou limitada a recursos gráficos – tem o objetivo de conectar o consumidor com o vinho.
23/10/2025 21h51 Atualizada há 1 ano
Por: Redação Fonte: Guia dos Vinhos
Rótulo do Birth of Cabernet: premiado pelo Drinks Business Awards de 2025

Um rótulo de vinho é uma mensagem na garrafa. Só que do lado de fora. A mensagem - em forma de texto, enriquecida com ilustrações ou limitada a recursos gráficos – tem o objetivo de conectar o consumidor com o vinho. Um rótulo também pode contar histórias, como conceberam as irmãs Laura e Adrianna Catena para o Catena Zapata Birth of Cabernet, premiado como melhor design e embalagem pelo júri do Drinks Business Awards de 2025.

Rótulos tradicionais, que seguem legislações de origem, são obrigados a imprimir a região, produtor, teor alcoólico, safra e eventualmente a uva. Rótulos artísticos, que não estão amarrados a regras, buscam atrair o consumidor por meio de um design marcante, que expressem a filosofia por trás da garrafa. Os mais radicais ou alternativos fazem isso de maneira minimalista, com artes conceituais. Cada escolha busca seu público ou mesmo reflete sua origem.


Rótulos tradicionais da Itália, França e Espanha

Um rótulo, no entanto, não faz um vinho. Mas o contrário é uma premissa válida. Um exemplo simples, do tinto mais cultuado do planeta, o Domaine de la Romanée-Conti. É um rótulo que usa apenas recursos textuais: com informações da apelação, região, safra e assinaturas dos proprietários (e como é regra na Borgonha sem o nome da uva, desnecessário no caso). Fundo branco, tipologia preta e um detalhe em verde. E mínimas alterações gráficas ao longo dos anos. Para conhecedores e especialistas no assunto é um rótulo que se destaca pelo que representa e não necessariamente por uma embalagem de impacto. Tanto é verdade que a cópia descarada do rótulo é usada em outros caldos menos famosos, meio como tentando passar um verniz em sinteco usado. Até brilha, mas não disfarça a origem.


Rótulo do francês Romanée-Conti e do brasileiro Churchill Cabernet Franc: alguma semelhança?

Mas mesmo regiões com legislações rígidas e informações obrigatórias no rótulo podem inovar. Um dos casos mais famosos e obrigatórios em qualquer enciclopédia vinho são as etiquetas do cultuado Château Mouton Rothschild, um dos cinco Premier Crus de Bordeaux. Concebidas pelos não menos cultuados artistas deste e do século passado, os rótulos mostram desenhos de gente do calibre de Joan Miró, Pablo Picasso, Francis Bacon, Salvador Dalí, Andy Warhol. Na comprra de um vinho você leva uma reproducão de uma obra de arte.


Desenhos de Andy Warhol, Salvador Dal e Picasso para o Mouton Rothschild

Um vinho mais acessível ao bolso e ao gosto do consumidor brasileiro também se vale desta sacada de convidar um artista a cada nova safra para ilustrar seu rótulo. São os vinhos do Alentejo da Herdade do Esporão. Desde 1985 as etiquetas do Esporão Reserva e do Private Selection são elaboradas por artistas de origem portuguesa, em sua maioria, com a participação eventual de profissionais do lado de cá do Oceano Atlântico.


Artistas diferentes a cada safra do Herdade do Esporão Reserva

Do lado mais divertido, iconoclasta e nem por isso menos marketeiro se encontram aqueles produtores que buscam se diferenciar ou expressar sua verdade com rótulos mais disruptivos. Há de tudo nesta turma, desde os tradicionais que usam o recurso para atrair um público mais amplo, até os mais radicais representantes dos vinhos naturais, orgânicos, biodinâmicos que assim se comunicam com seu público mais alternativo ou com maior consciência ambiental e que expressam graficamente a imagem que os representa melhor. No geral são rótulos com design divertido, ou explicitamente ideológicos, com mensagens diretas impressas no rótulo ou contrarrótulo.


Os franceses Yin Yang Rouge NV, Vilain e o brasileiro Era dos Ventos


Agora sim, o rótulo do Birth of Cabernet

Se o meio é a mensagem, como dizia o pensador Marshall McLuhan, e sendo a garrafa o suporte do vinho, uma boa sacada é uma etiqueta descrever a linha do tempo da uva que está encapsulada em seu interior. É quando um rótulo conta uma história. É o caso da impactante ilustração de Rick Shaefer que embala a garrafa do Catena Zapata Birth of Cabernet 2021, que como indica o nome, é um tributo a uva mais plantada no mundo segundo a OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho).

A história

Originária da região de Bordeaux, no sudoeste da França, a cabernet sauvignon pode ser usada como uma analogia e um bom contraponto às ideologias ultraconservadores que negam a importância da migração e da miscigenação para a formação de um país. A cepa é resultado do cruzamento da uva branca sauvignon blanc e a tinta cabernet franc. Como se deu este cruzamento de opostos? Um grupo de abelhas, em meados do século XVIII, leva o pólen das flores da uva tinta cabernet franc para as flores da uva branca sauvignon blanc. Daí surgiu uma nova muda. Uma guerra, sempre ela, fez com que o vinhedo fosse esquecido. Anos mais tarde, ao deparar com esta videira desconhecida um viticultor ficou impressionado. Sua descoberta era a cabernet sauvignon.


Rótulo do Birth of Cabernet: premiado pelo Drinks Business Awards de 2025

O rótulo

Laura Catena, quarta geração e diretora geral da Catena Zapata, explica a concepção do rótulo, uma criação do stúdio Stranger & Stranger, ilustrado por Rick Shaefer: “Nosso vinho 'Birth of Cabernet' não é apenas sobre a história da uva mais lendária do mundo, a cabernet sauvignon, mas também faz referência às conexões entre a natureza, o vinho e a humanidade. Este rótulo, cuja história foi criada em conjunto entre uma cientista (eu) e uma historiadora, minha irmã Adrianna Catena, mostra como é importante nos manter conectados com a história, a natureza, o prazer, amor e a arte de contar histórias em nossa sociedade atual, onde a maior ameaça à humanidade é a desconexão e o isolamento da natureza.”

Para materializar esta ideia o desenho lança mão de várias iconografias que reinterpretam a história. Uma espécie de mural em forma de rótulo, inspirada nos trípticos medievais e na arte pré-rafaelita, conta a história da uva, desde a origem, em Bordeaux, há mais de 100 anos, até o cultivo em Mendoza pela Catena Zapata. Quem já topou com uma garrafa do Malbec Argentino, vai notar a semelhança de proposta e de arte no rótulo.

Assim como para aproveitar um vinho de excelência é preciso repertório, para decifrar a etiqueta do Birth of Cabernet é necessário um guia que explique o desenho. São cerca de 22 imagens que retratam algum momento da história da uva: animais, trajes, paisagens, objetos. As abelhas são autoexplicativas. A raposa representa a cabernet franc, com atributos do Cardeal Richelieu, responsável por levar a cepa para o Vale do Loire. A sereia – parte mulher, parte pássaro – representa a sauvignon blanc e a natureza mística do encontro. Desta união amorosa, surge a cabernet sauvignon - retratada como um viajante do mundo pelo globo terrestre - que viaja pelos Pirineus franceses, passa pela Califórnia - simbolizado pelo cachorro selvagem -, e finalmente chega até a Pirâmide da Catena Zapata, aos pés da Cordilheira do Andes, na Argentina. O nome fica até em segundo plano, na parte de baixo do rótulo. O impacto da iconografia é tão grande que quase torna desnecessário nomeá-lo. O reconhecimento se dará sempre pela etiqueta.


O rótulo onde é mais importante: na garrafa

O vinho

Catena Zapata Birth of Cabernet 2021 é elaborado com cabernet sauvignon (90%) e um pouco de cabernet franc (10%). As uvas são provenientes de dois diferentes vinhedos. Angélica Sur fica no Valle de Uco, a 1100 metros de altitude, tem solo aluvial composto por argila e densas camadas superficiais de cascalho, e foi plantado em 2005. Já o La Pirámide, com 85 anos, está situado em Agrelo, a 940 metros de altitude, e conta com solo argiloso na camada superficial e pedras arredondadas no fundo. Foi maturado por 12 a 24 meses em barris de carvalho de primeiro, segundo e terceiro uso. O enólogo, dispensa apresentações e salamaleques, é Alejandro Vigil: o El Enemigo mais amigo dos apreciadores de vinhos argentinos no Brasil.

A prova

O crítico americano James Suckling tascou 96 pontos em sua avaliação: “Caixa de charutos, folhas de tabaco e trufas negras com muitas azeitonas pretas maduras. Muitos taninos marcantes que crescem no paladar, com grande foco e frescor. O final é cheio de camadas e longo. Beba a partir de 2026”.

Não é um vinho para o dia a dia, claro. Nem foi concebido com esta intenção. Muito menos é um rótulo que vai passar pelo ranking do Guia dos Vinhos. Mas nem só de vinhos do Guia vive este escrevinhador. Foi aberto e compartilhado em um dia especial com pessoas mais especiais ainda: no meu aniversário e com minha família. O que a bem da verdade é como uma prova dos noves para um tinto de alta gama: ser provado tanto por pessoas com litragem suficiente para reconhecer quando se está diante de um grande vinho como por aqueles que não estão habituados e mesmo assim se impressionam com a taça e param por um instante o que estão fazendo para prestar atenção à bebida.

Elegância, equilíbrio e profundidade o definem. Nada está em excesso. Todo o conjunto está harmonizado. A elegância vem de seus taninos sedosos, das frutas negras bem colocadas (amora, cassis) e da madeira que faz seu trabalho sem protagonizar no paladar. O equilíbrio fino vem de atributos como fruta no ponto, potência e frescor. A profundidade, do final longo e delicado. No Brasil é importado pela Mistral.

Se o Catena Zapata Birth of Cabernet representa a história da cabernet sauvignon é uma questão em aberto para os estudiosos e conhecedores debaterem. É uma proposta ousada mesmo com todos os seus predicados. Mas como defende o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, na abertura de sua obra máxima, Viva o Povo Brasileiro, “O segredo da verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. Esta é apenas uma versão.